Se deixar passar fome, acaba comendo. Será?

Como muitos já devem saber, sou responsável pelo Ambulatório de Dificuldades Alimentares do HCPR.

No ambulatório, a mãe do Pedrinho ( nome fictício), vem para retorno, era a terceira consulta, Pedrinho havia evoluído, já experimentava alguns sabores e texturas, na escola comia alguns tipos de alimentos a mais, mas ainda havia um percurso longo. Ele tem uma seletividade grave e está em investigação de Transtorno do Espectro Autista.

Os dois vinham de uma consulta com outro profissional de saúde que orientou que o deixasse sem comer, que “com fome ele acabaria comendo”.

Pois bem , como é uma mãe bastante preocupada e engajada no tratamento do filho ela aguentou do almoço até as 3 da manhã.

Disse na consulta: “Aguentei o que deu doutor, mas o estômago dele fazia barulho, acabei dando a mamadeira”.

A maioria das crianças quando têm fome comem. Mas isto não se aplica àquelas com Dificuldades Alimentares.

Nenhuma mão consegue “deixar passar fome”. Faz parte de um “programa” que vem com a maternidade, nutrir suas crianças. Muitas vezes no consultório vemos quadros relativamente graves onde a primeira queixa da mãe é que a criança não está comendo. Não digo isto como um demérito às mães, e sim para mostrar a importância que isto tem. Comer bem, para ficar saudável, crescer e não morrer.

Umas das técnicas iniciais aplicadas às Dificuldades Alimentares é o HORÁRIO ALIMENTAR QUE ESTIMULE O APETITE.

O que é isto?

Muitas mães alimentam seus filhos a cada instante, por motivos variados que serão assunto noutra hora.

Estas crianças não têm a chance de sentir fome, chegam ao almoço por exemplo 1 hora após terem mamado ou comido um lanche. Elas podem até começar a comer o arroz com feijão, mas aceitam apenas algumas colheradas para desespero das suas atenciosas mães. A mãe percebe esta situação como se seu filho não estivesse comendo bem (já falei do medo) e começa a tomar atitudes coercitivas ou a substituir a comida por qualquer coisa que ele coma, (“não comeu o almoço mas pelo menos tomou a mamadeira”).

Portanto, a criança precisa sentir as dicas internas de fome e saciedade. Caso contrário comer deixa de ser uma atividade agradável e passa a ser uma guerra. É possível ter refeições do tipo “propaganda de margarina”, mas pode demorar e exige mudanças de atitude.

Muita calma nesta hora. O Pedrinho está melhorando, e vai melhorar muito. Já não há tanto estresse durante a refeição. Mas ele ainda não está pronto para comer adequadamente. Devagar, com trabalho e carinho a gente chega lá.

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