
Meu filho não come é a queixa mais frequente no consultório do pediatra. Muitas vezes não é a principal, mas vem junto.
Se tem febre, não come, se tem diarréia, não come, se tem tosse também não come.
Porém muitas vezes é a queixa principal, e pode indicar uma condição mais preocupante. Uma intolerância alimentar, uma doença do aparelho digestivo ou uma doença neurológica ou psiquiátrica.
Estes quadros mais graves correspondem a apenas 5 a 10 % dos casos, conforme a estatística escolhida.
Na maioria das vezes a queixa de não comer não apresenta repercussão orgânica significativa, ou seja, não perturba o crescimento e não traz carências nutricionais importantes.
E mesmo sem afetar significativamente o ganho de peso, as mães continuam a procurar o pediatra porque seus filhos não comem. Porque?
A mulher ao se tornar mãe, e às vezes antes do bebê nascer, desenvolve uma preocupação muito forte em relação a nutrição de seus filhos. É uma questão de sobrevivência mesmo. Ao menor sinal de falha no processo da alimentação, lá dentro desta mãe é disparado um alarme. Ela vai alimentar/proteger/cuidar de quem ama da maneira que ela achar mais eficiente.
Quando parece que isto não está dando resultado a mãe entra em sofrimento.
As mães em sofrimento tendem a se perder no cuidado de seus filhos. Elas precisam voltar ao seu centro. Quando digo isto, me refiro às mães conseguirem perceber adequadamente as reações e demandas dos filhos. Conseguir dar aquilo que a criança precisa e não o que elas desejam.
Às vezes esta percepção está distorcida pelo medo de que algo aconteça à criança ou pela insegurança quanto a sua capacidade de serem mães (qual mãe já não pensou que está fazendo tudo errado e que é culpada por tudo?).
Nesta situação há a tendência de que o momento da alimentação passe a ser um momento de muito estresse. O que deveria ser algo como “propaganda de margarina” vira uma luta de boxe ou pior, de MMA.
Uma vez que nascem totalmente dependentes dos adultos, as crianças têm na mãe ou naquela pessoa que desempenha essa função, o apoio para seu desenvolvimento e constituição como um individuo. As crianças dependem dos adultos. No início da vida a mãe funciona como um “ego auxiliar” até que a criança desenvolva seu próprio ego. Quando surgem problemas na relação com a mãe e com o pai, o desenvolvimento emocional da criança pode sofrer com isto.
Em 2015 Dr. Kerzner, um gastroenterologista da Universidade de Columbia, publicou um artigo onde esquematiza de forma prática o estudo destas crianças que não estão comendo, com uma novidade, inclui o estilo dos pais nesta abordagem. Dr. Kerzner propõe que quando uma mãe se queixa “ meu filho não come”, o pediatra deve ficar atento para investigação do que ele passou a chamar de Dificuldade Alimentar. Um termo amplo que engloba desde doenças graves até erros de interpretação dos pais em relação a alimentação de seus filhos.
Apesar de importante, este trabalho não é definitivo. Muitas coisas ainda precisam ser melhor entendidas.
Ao longo da minha prática clínica, e do estudo de vários autores pude perceber que a abordagem das DAs não deve ter seu foco principal na comida, os melhores resultados acontecem quando muita atenção é dada às RELAÇÕES. As relações da criança com a alimentação, a relação dos pais com a alimentação e as relações entre os pais e os filhos.