E quando a criança só quer a sobremesa?

A mãe da Julinha (nome fictício), de 4 anos, veio para consulta no Ambulatório de Dificuldades Alimentares (ADA) com queixa de que a filha não estava comendo direito, passou a recusar o almoço, não queria o arroz e feijão, mas estava comendo “porcarias”. Nas regras da casa está presente um doce na sobremesa. A Julia aprendeu a recusar o almoço e passar direto para a sobremesa.

A mãe de Julia contou o seguinte:

-Eu sirvo o pratinho e ela recusa, tento forçar e ela recusa. Então digo, é isto que tem e se você não comer, você vai passar fome e não vai ganhar sobremesa se não comer o almoço. Ela fica sem comer e me pede o doce, não dou, passa um tempo ela pede o doce de novo chorando e eu não dou, ela começa a gritar e chega a um ponto em que eu não aguento e cedo.

A mãe da Julinha é uma mãe atenciosa que passa por um problema familiar importante. Será que adianta falar pra ela que ela não deveria ter comprado o doce ou que ela está errada porque acabou cedendo?

Se fosse fácil assim não precisaríamos do ADA. 

Quando as mães ficam muito preocupadas com o bem estar dos filhos, e o fato deles não comerem costuma ser uma preocupação muito grande, elas tendem a se perder nas suas condutas e podem precisar de uma orientação de fora. E esta orientação deve fortalecer aquilo que a mãe já faz de bom. A orientação não quer dizer uma ordem, quer dizer uma orientação mesmo, quer dizer que a mãe vai ter autonomia para escolher se segue ou não.

A mãe da Julia sabe que precisa por limites, sabe qual o melhor alimento, e sabe que não deve substituir o almoço pela sobremesa. Saber estas coisas é muito importante. O problema é que ela não consegue sustentar seu saber.

Neste caso a proposta foi ajustar a forma como a mãe põe o limite. 

Primeiro, ela poderia fazer um HORÁRIO QUE ESTIMULE O APETITE, para que na hora do almoço o apetite esteja bem favorável. Isto quer dizer que deve haver um intervalo de aproximadamente 3 horas entre as refeições, sem ingesta de nenhuma caloria, ou seja, só pode água. Também deve ser reduzido o estresse durante refeições. Forçar, chantagear e brigar até podem surtir algum efeito na hora, mas piora tudo a longo prazo.

A mãe foi orientada que seria melhor não dizer que se a filha não comesse iria passar fome. A Julinha não acredita nisto, porque ultimamente sua mãe não tem aguentado e tem cedido às suas manhas. E também porque crianças pequenas não entendem o conceito de tempo adequadamente, não sabem o que é passar fome lá na frente. Agora ela não tem fome suficiente para comer o arroz com feijão, mas tem vontade de comer o doce. O tempo é um conceito muito complexo para crianças pequenas.

Quanto à sobremesa, a mãe foi orientada a dizer que não é um prêmio pelo almoço e sim que faz parte do almoço e que é servido no final.

Como parece ser um problema de limites, os limites precisam ficar bem claros para a Julia e para a mãe. O que pode e o que não pode comer. O tempo em que vai ficar sem comer. Se falar que vai passar fome a mãe não sabe quanto tempo vai ter que tolerar o estresse. Quando o intervalo de 3 horas é colocado fica mais fácil para a mãe. A mãe pode também informar a Julinha o que será dado na próxima refeição.

O aconselhamento é dizer pra Julinha que naquele almoço tem arroz com feijão e que a próxima refeição será as 15 horas (dá para mostrar o relógio e indicar a posição na qual os ponteiros estarão no horário do lanche, fica mais concreto) e que neste intervalo não vai dar pra comer. Às 15 a mãe pode optar por servir o lanche da rotina ou esquentar a comida do almoço. A mãe decide de acordo com a sua segurança. Obviamente a mãe pode oferecer o prato do almoço antes, se o estresse ficar muito crítico. Quando os limites são claros e o tempo é bem determinado, e não muito longo, fica mais fácil para mãe planejar a estratégia e assim se sente mais segura em lidar com a situação. 

Um mudança aparentemente simples na conduta, tem resultados muito diferentes. A mãe sabe que não vai deixar sua filha morrer de fome, tem um período de tempo programado e curto para aguentar as manhas da Julinha e também descobre que pode colocar limites sem sentir-se má, muito pelo contrário. Um limite amoroso é muito melhor que indulgência estressante.

A sua filha passou a comer melhor, o estresse diminuiu e a mãe está mais segura e com um problema a menos para lidar. Consegue dar atenção do tamanho certo para sua filha e para seu problema familiar.

A Julinha já está melhorando, logo ela e a mãe ganham alta.

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