
Dudu, de 6 meses, estava no colo de sua mãe. Na sala, eu observava a consulta. A médica, residente de pediatria, orientava os pais. Os pais, muito bons por sinal, prestavam atenção nas orientações e eu prestava atenção no Dudu. Ele tinha na mão a espátula de exame, aquele palito que usamos para examinar a garganta e provocar vômitos nas crianças.
Aquele palito parecia delicioso, Dudu punha e tirava da boca, babava, olhava, tentava virar, punha na boca atravessado, tirava e punha novamente. Até que…colocou o palito fundo demais na garganta. Aí observei um evento muito interessante. Dudu fez uma careta e teve uma náusea leve, tirou o palito, esperou um pouco e colocou novamente na boca, mas desta vez só a ponta. Ninguém, só eu e o Dudu percebemos.
Foi um evento banal e corriqueiro, mas muito importante.
Aos 6 meses Dudu teve uma experiência sobre limites. Uma das muitas que já teve e das tantas outras que ainda terá.
Se a mãe do Dudu não tivesse deixado ele brincar com o palito, ele poderia ter perdido a oportunidade, ou se ela tivesse se assustado com o pequeno engasgo e tirado o palito, ele poderia experienciar algo muito mais traumático em relação ao que aconteceu.
Explico porque conto tudo isto.
Quando atendo casais com seus filhos e explico sobre Responsabilidade Compartilhada( ver aqui), os pais se assustam, preocupados se a criança não é muito nova para assumir “tanta responsabilidade”.
Claro que as coisas tem que ser proporcionais à idade e ao desenvolvimento da criança.
O Dudu consegue aos 6 meses manipular objetos e levá-los a boca, consegue controlar quanto vai por dentro da boca e provavelmente vai cometer alguns erros ainda, até ter bastante habilidade. Por enquanto, ele não consegue comer sozinho toda uma refeição, mas este controle que ele vem aprendendo é que vai ensiná-lo, lá na frente, a não enfiar a colher lá no fundo da garganta.
Bom, como isto se aplica às Dificuldades Alimentares?
Muitas crianças maiores não comem uma quantidade suficiente no almoço, por vários motivos, algumas vezes porque sabem que se não comerem a mãe vai providenciar outra coisa em seguida: “Já que não comeu almoço, pelo menos come isto.”
É muito importante que a criança compreenda suas dicas internas de fome e saciedade. Ela precisa saber que se comer pouco no almoço ela poderá sentir fome antes da próxima refeição, que será mais ou menos em 3 horas. Precisa saber também que sua mãe dá conta dela e da sua angústia. (O “dela” e “sua” nesta frase ficaram ambíguos de propósito. Crianças precisam de cuidadores que não se apavorem, mas isto eu falarei noutra oportunidade).
Com o tempo e a mãe segura, colocando limites bem claros e do tamanho certo, sem brigas, a criança aprende que precisa comer o suficiente para não sentir fome antes da hora, aprende que comeu o suficiente quando a “barriguinhas está cheia” e que o momento da refeição é muito legal.
Winnicott diz que “com o tempo, o bebê começa a precisar da mãe para ser malsucedido em sua adaptação”, o bebê sai da sua condição de onipotência, vive frustrações e tem sua mãe para apoiá-lo. A mãe começa a não precisar suprir imediatamente todas as necessidades da criança, mas a ensina a lidar com dificuldades do meio ambiente, ela está por perto se precisar.
Se o Dudu, aos 6 meses, já mostra que sabe aprender limites, por que crianças maiores não podem entender que se recusarem a comida gostosa e saudável que a mãe fez, terão que esperar um pouco para comer novamente?
Fica a pergunta.
Ah, outro motivo para contar esta história é que me emociona a observação destas crianças, neste processo interminável de virar gente grande.