Dia 26\07 foi o Dia dos Avós. 

Sou fã dos avós, talvez porque não tenha mais os meus. Porque avós ensinam muitas coisas. Porque avós cuidam de crianças como ninguém. Também, porque avós estão em falta. A maioria ainda está trabalhando. Poucos tem a sorte de aproveitar a aposentadoria vivendo bem e cuidando um do outro, das amizades e dos netos.

Vou contar a história da Carol e sua avó, Dona Carlota. 

Carol de 6 anos veio para consulta porque tem a alimentação restrita, só come doces, massas e coisas gordurosas, está obesa, com colesterol um pouco aumentado e triglicerídeos muito aumentados (dislipidemia).

Quem cuida da Carol durante o dia é a avó.

Veio para a quarta consulta com pouca melhora. Tinha até aumentado 3 quilos nos últimos 3 meses. Continua recusando alimentos diferentes, mas a avó comemora que agora ela experimenta alimentos novos, por exemplo, coxinha, bolinha de queijo e pães (só aceitava “bisnaguinha”). Foi tentado retirar o leite integral e substituí-lo por leite desnatado, mas Carol fez escândalo, não quis e voltou a receber leite com 3%de gordura. Ou seja, Carol melhorou um pouco na quantidade de comida, mas a qualidade até piorou. 

Lembro que ela tem obesidade com dislipidemia.

A avó conta que o coração aperta quando não dá o que a neta pede, que ela chora muito quando é contrariada, que com o leite foi assim, que tenta colocar alimentos mais saudáveis, os quais Carol recusa, fica chorando e diz que está morrendo de fome (ela é bem dramática). 

Desta vez, no ambulatório estávamos eu, a nutróloga e a residente de pediatria. Nenhum argumento parecia adiantar.

Quando explicamos o risco de uma criança começar, aos 6 anos, a ter doenças de adultos (dislipidemia) e que havia grande probabilidade de ela ter doença cardiovascular e diabetes mais cedo, a avó falou: “Não quero nem imaginar ela ficar doente!”. Tivemos que dizer que a Carol já estava doente, com uma doença que vai demorar anos até mostrar seus sintomas e que esta doença tem cura e que esta cura  pode acontecer pela mudança de hábitos de vida, principalmente no que diz respeito à alimentação.

-É RUIM AMAR DEMAIS? 

Dona Carlota estava com os olhos cheios de lágrimas quando falou isto. A consulta estava muito tensa. 

-Dona Carlota, nós entendemos a senhora, sabemos o quanto ama sua neta, sabemos o quanto a Carol a ama. Mas, amar não quer dizer fazer tudo o que a criança quer. Amar é fazer o que a criança precisa. Inclusive negar o que ela mais deseja, se isto estiver fazendo mal pra ela. Nós queremos que a senhora ame a Carol, muito e por muitos anos.

Dona Carlota ficou mais calma.

-Então, o que eu faço doutor?

Explicamos tudo novamente, o horário que estimule o apetite, a experimentação sistemática, a colocação de limites, os alimentos que fazem mal. Tudo.

Pedimos que Dona Carlota pensasse  no que a estaria impedindo de conseguir por limites na neta e também o que a impossibilitava de tolerar o choro de manha da Carol. Não pedimos respostas imediatas, mas que a avó pensasse a respeito.

Os avós tendem a acocar os netos. Já criaram seus filhos, foram duros com eles porque precisavam. Alguns se arrependem. É comum os pais falarem que os avós fazem coisas para os netos que não faziam para eles quando pequenos. E tem que ser assim. (Eu também planejo algumas coisas para quando tiver netos). 

Os avós contam que, às vezes, se arrependem de algumas coisas, que eram muito jovens, tinham medos (que todos os pais têm), que fariam coisas diferentes com seus filhos se fossem criá-los novamente. 

Os avós amadureceram muito e muito tempo se passou desde que tiveram filhos.  Fazer julgamento retrospectivo nem sempre é justo.

Eu acho que a função dos avós é mimar os netos mesmo. Mas sem interferir na educação que os pais dão e sem fazer coisas que prejudiquem seus netos. O problema é que alguns avós não sabem muito bem como fazer isto. Mas estão muito dispostos a aprender. Com uma boa conversa tudo se resolve.

Não foi fácil para Dona Carlota escutar o que falamos, teve que olhar o problema de frente, porém, ela saiu da consulta mais consciente e determinada a tomar as condutas para melhorar a saúde da Carol. 

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