
Era a segunda consulta da Clarinha, de 6 anos. Desta vez veio com a mãe e o pai. Clara come mal, os pais estão preocupados. A dieta da filha é rica em massas, pães, leite, doces e guloseimas. Come poucos legumes e verduras. A mãe tem a impressão de que a filha come pouco.
Na primeira consulta foi visto que o problema era que Clara comia com muita frequência, alimentos muito calóricos. Pegava os alimentos que gostava sozinha ou chorava e a mãe ou o pai davam o que ela pedia, porque era muito insistente e também porque estavam preocupados pois, como já disse, “comia pouco”. O que acontecia era que nas refeições principais Clara não comia, não sentia fome pois, um pouco antes havia comido uma guloseima ou um doce.
Um detalhe importante, nas curvas de crescimento Clara estava em sobrepeso.
Isto é muito comum, é um erro de interpretação dos pais: a criança não come nas refeições principais (almoço e janta), onde a comida tende a ser a mais saudável, mas ingere muitas calorias ao longo do dia.
É curioso, porque os pais realmente não percebem. E quando percebem, muitas vezes, não conseguem mudar.
Na primeira consulta a mãe recebeu as orientações de alívio de estresse e de horário que estimule o apetite. Foi pedido que não brigasse, que as refeições fossem feitas num clima mais agradável e que tivesse horários bem estabelecidos para se alimentar, sem nada nos intervalos.
Outra coisa, pedimos aos pais que melhorassem a qualidade da comida em casa, pois os pais também comiam poucos legumes e verduras, explicamos que na idade da Clara, o exemplo é muito importante.
Não deu muito certo.
Os pais contaram que não conseguiam lidar com o choro e as insistências da Clarinha, a mãe ficava angustiada e o pai irritado.
Disseram “não aguentamos ver ela chorando”.
Acabei de falar sobre exemplo, não?
Pois bem. É fácil dar exemplos conscientes e positivos.
E aqueles que aparecem por causa das nossas fragilidades e geralmente tem resultado negativo na criança? Estes são muito cruéis, porque mostram nossas falhas e nossas fraquezas.
A Clara não tolera frustrações, o que é relativamente normal nesta idade. E seus pais não toleram ver a filha frustrada, isso piora o problema.
Eles aliviam o “sofrimento” da filha o mais rápido possível, com isto protelam. Todos sofrem mais tarde pelas birras e pela preocupação com a saúde da Clara
Desta forma, na consulta, demos uma atenção especial à dificuldade que os pais têm em lidar com a frustração da filha.
Pedimos aos pais que lembrassem de momentos onde negam algo e determinam limites para Clara. Mostramos que se eles conseguem em algumas situações, podem conseguir quando se trata da comida da filha.
Pedimos também que pensassem sobre suas dificuldades em lidar com as frustrações, principalmente as da Clara.
Mostramos que Clara aprende por exemplos, que é saudável para ela perceber que os pais “dão conta”. Que eles sustentam o que determinam. Que estão ali para dar educação, apoio e exemplo.
Saíram mais tranquilos da consulta.