
Um dos primeiros pacientes que foi atendido no Ambulatório de Dificuldades Alimentares foi o Pedro (nome fictício).
Pedro tinha 3 anos, comia pouco e era pequeno para a idade, tanto em peso como em estatura. Mas era proporcional. Tinha o IMC dentro da normalidade.
Os pais, muito jovens e muito interessados no bem estar de Pedro, estavam preocupados pois a família estava “botando muita pressão”.
A situação era a seguinte:
Pedro comia pouco.
Era menor que os amiguinhos.
A família pressionava os pais, que pressionavam o Pedro para comer.
Pedro recebia comida várias vezes ao dia, e os pais tentavam força-lo a comer. A hora da janta e do almoço eram as piores.
Pedro e os pais moravam num sítio, ele não ficava doente, não tinha nenhum sinal de atraso neurológico, parecia apenas uma criança miúda. Para corroborar isto, os pais eram pequenos também, a mãe com 149cm e o pai com 160cm.
Neste caso pedimos ajuda ao serviço de Endocrinologia Pediátrica para investigar causas de baixa estatura e iniciamos as condutas para aliviar o estresse da família e fazer horários para as refeições.
Na terceira consulta demos alta. Pedro não tinha nenhum problema hormonal, já estava comendo bem nas refeições. Os pais estavam mais tranquilos em saber que o filho comia pouco porque comia proporcionalmente ao seu tamanho e que Pedro era pequeno porque os pais eram pequenos. A fruta não cai longe do pé.
Uma causa comum de procura pelo Amb. De Dificuldades Alimentares são os Erros de Percepção. Os pais acham que o filho come pouco ou que o filho é seletivo.
Algumas vezes estas crianças estão comendo adequadamente, com uma variedade adequada para a idade. Mas como os pais estão muito preocupados começam a tomar condutas alimentares que vão desenvolver uma dificuldade alimentar verdadeira, a criança passa a se relacionar muito mal com a comida e com o momento da refeição.
Sempre é importante lembrar que comer deve ser um processo agradável, afinal, uma refeição é muito mais que comer. É quando a cultura da família é transmitida, quando se conversa, ri, conta histórias, fala-se do dia e, inclusive, é quando se come.