Crianças seletivas são seletivas porque não conseguem ser de outra forma. Elas não são assim porque querem, porque são chatas. Simplesmente, elas enxergam alguns alimentos com muita aversão. Se, para as crianças sem seletividade, um prato de arroz e feijão pode ser muito apetitoso, para a seletiva este prato é insuportavelmente nojento e amedrontador.

Quando um adulto está diante de um alimento desconhecido, consegue, de um jeito mais ou menos eficiente, prever se é comestível e se pode ser saboroso. Crianças tem mais dificuldade para fazer isto. As seletivas costumam “prever” que a maioria dos alimentos não são nem comestíveis e nem saborosos.

Existem muitos meios para melhorar a seletividade, mas o primeiro e mais importante é permitir que a criança se aproxime adequadamente de um alimento.

Imagine que você vai visitar um amigo e ele lhe oferece um alimento que nunca viu na vida e que tem um aspecto muito estranho. Para conseguir comer este alimento é possível que você siga os seguintes passos:

1-Olha para o alimento e procura identificar sinais que indiquem as qualidades do alimento. Textura, cor, se ele lembra algum alimento que você já comeu, etc.

2-Olha para as outras pessoas e como elas se relacionam com este alimento. Se estão comendo com alegria, se fazem cara feia, o que dizem sobre o alimento, como se comportam ao comer e como fazem para comer (se misturam com alguma coisa, se comem puro, colocam algum tempero, etc).

3-Cheira o alimento para identificar mais características.

4-Toca para sentir a textura.

5-Pode levar à boca para lamber ou dar uma mordidinha.

6-Se for algum alimento que é comido misturado com algum acompanhamento que você goste, provavelmente vai se servir de muito deste acompanhamento e um pouquinho deste novo alimento.

7-Vai comer um pouco e observar durante um tempo se “sobrevive” à experiência.

8-Se “sobreviver” e perceber que gostou vai passar a ingerir quantidades maiores.

Com crianças seletivas é mais ou menos assim que acontece, só que muito mais lentamente, pode demorar muitos dias ou meses para que se sinta confortável diante de um alimento.

A criança precisa olhar alimento, ver como os adultos e os amiguinhos ingerem e se comportam diante deste alimento, cheirar, tocar, tentar levar o alimento à boca, mastigar, cuspir se não se sentir confortável, tudo no seu tempo e sem pressões ou obrigações.

Imagine que aquele seu amigo, ao invés de deixar você à vontade diante daquele alimento, enchesse uma colher e tentasse enfiá-la em sua boca sem você ter tido tempo de se acostumar com a ideia de experimentar algo novo?

Quais as suas sensações?

Provavelmente estas sensação são muito parecidas com aquelas que a criança sente quando é obrigada a comer, quando não lhe é dado o tempo para se sentir confortável e “fazer amizade” com o novo alimento. A aversão que naturalmente já a incomoda vai piorar muito.

Crianças seletivas precisam ser respeitadas, precisam ser estimuladas adequadamente, sem pressões e precisam ser bem diagnosticadas. Muitas vezes vão precisar de ajuda profissional.

Com calma e paciência elas vão aprendendo a se relacionar adequadamente com a comida. E as refeições ficam mais saudáveis e prazerosas.

Deixe um comentário