Este questionamento, comum entre muitos pais que recebo em meu consultório, é resultado do grande número de crianças com o quadro de Refluxo Gastroesofágico (RGE), caracterizado pelo retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, podendo chegar até a boca e vias aéreas superiores. Quando chega a boca é também conhecido como regurgitação.

O fenômeno é normal, ocorre em todas as pessoas e em qualquer idade. Nem sempre é percebido e não causa problemas de saúde, mas no caso dos bebês na hora do sono, é necessária uma atenção maior.

As vias aéreas ficam na frente do esôfago, onde passa alimento, por isso, quando o bebê está deitado com as costas no colchão, as vias aéreas ficam mais altas que as vias digestórias, assim, se acontecer o refluxo, a força de gravidade vai dificultar a entrada de líquidos na traqueia e consequentemente a aspiração fica mais difícil. Quando o bebê está de barriga para cima e tiver um episódio de refluxo, esse conteúdo gástrico consegue se depositar na parte inferior da faringe, dando tempo ao bebê de proceder a deglutição e engolir de volta esse alimento ao estômago.

Estando de barriga para baixo, o refluxo chega na faringe e, por força da gravidade, vai para dentro dos pulmões, provocando a aspiração e podendo trazer consequências mais graves.

O Refluxo vira doença (Doença do Refluxo Gastroesofágico – DRGE) quando causa uma manifestação clínica. Pode ser dor, alterações de sono, dificuldade nas mamadas, irritabilidade, choro excessivo, redução do ganho ou perda de peso, anemia, dor de garganta, arqueamento do corpo para trás, enjoo matinal ou sintomas respiratórios.

Na forma de regurgitação (ou golfada), que afeta 60% dos lactentes, o refluxo começa antes de oito semanas de vida, acontece seis ou mais vezes ao dia, e vai diminuindo com a idade. Entre 90 a 95% dos bebês melhoram até um ano de vida.

O diagnóstico é clínico, geralmente não são necessários exames, mas nós, pediatras, devemos ficar atentos para outras causas dos sintomas e, quando necessário, solicitar exames, como Raio X, Cintilografia, pHmetria e ultrassom.

Para tratar a regurgitação recomendo algumas medidas:
1- Manter o bebê em posição vertical por 20 a 30 minutos após a mamada. Lembro que não é obrigatório que ele arrote;
2- Berço inclinado, entre 30 até 40 graus, usando um suporte nos pés da cabeceira (é melhor evitar o travesseiro “anti-refluxo” e preferir elevar a cabeceira do berço com um suporte de 15 a 20 cm nos pés da cabeceira). Dormir de barriga para cima;
3- Fórmulas anti-refluxo só são indicadas para bebês que não mamam ao seio. Nada é melhor que o leite materno!

Ressalto também que quando existe DRGE é preciso investigar a causa e avaliar as consequências para pensar em outros tratamentos. Raramente usamos medicamentos nestas situações.

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