Daruma é um boneco que representa Bodhidharma, monge da India que fundou o Zen Budismo. Você já deve ter visto por aí. É vendido com a cara enfezada e os olhos em branco. O ritual diz que você deve ganhar o boneco, pintar um dos olhos e na parte oca colocar um papel com seu desejo. Quando o desejo for satisfeito você pinta o outro olho. É uma versão oriental do Santo Antônio que é deixado de cabeça para baixo até que moça encontre um relacionamento.
Já que ninguém me dava e eu não sabia se valeria pedir, há uns vinte e tantos anos comprei meu Daruma. Pintei um dos olhos e me comprometi a livrar o monginho da amaurose parcial quando escrevesse meu primeiro livro. Como bom Zen Budista ele aguardou paciente.
Quando minha filha começou a deixar as fraldas, desenvolveu um problema muito comum, constipação do desfralde. Como o desfralde e o controle dos esfíncteres são situações novas para as crianças, elas podem criar muitas tensões em relação a evacuação, acabam retendo o cocô que fica seco e duro, doi, não sabem como lidar com o que sentem e a coisa piora.
Não lembro como inventei a história do Godofredo Onofre. Resumindo: é a história de um ratinho que não entende porque sente um desconforto na barriguinha, procura os pais que o ajudam e ele resolve seu problema, no dia seguinte quando o desconforto retorna ele já tem autonomia para resolver sozinho, tudo acaba bem. Contei a historinha várias vezes ao dia. Deu certo. Em 10 dias minha filha estava “curada” da constipação do desfralde. Passei a ensinar esta história para meus pacientes como um jeito de auxiliar as crianças nesta fase.
Em 2018 vi na prática que o que falamos não é exatamente o que o outro escuta. Uma mãe contou para o filho a história bem diferente. Resumindo: Godô precisava fazer cocô para salvar sua família. Diante de tanta responsabilidade, fazer cocô ficou mais tenso ainda. Resolvi que precisava entregar a historinha mais concreta, pronta, viraria um livro. Em 2019 com as ilustrações da Laura Mocelin nascia “O ratinho Godofredo Onofre e o cocô que queria visitar os amigos”.
Há anos estudo dificuldades alimentares na criança. Coordeno o ADA, Ambulatório de Dificuldades Alimentares do CHC-UFPR. Não é novidade que tenho um xodó por eles, Pelo ADA, pelo Hospital de Clínicas e pelo assunto. Atendo muitas famílias com crianças que comem mal. Muitos pediatras, também, estão aprendendo no ADA a
como cuidar deste problema. O problema era como chegar até quem está longe e não sabe que dá pra tornar a refeição em família mais tranquila. A partir disso saiu um livro para os pais: “Vamos para a mesa: orientações e reflexões sobre crianças que comem mal”. Da mesma forma que o livro do Godô estimula a autonomia das crianças e as ajuda a lidar com um problema, o “Vamos para a mesa” provoca reflexões e orienta os pais para que possam melhorar a alimentação de suas famílias.
O desejo escrever sempre existiu em mim, entretanto, o desejo não é algo que esteja ali na frente puxando a ação, desejo é algo que fica atrás, empurrando, e toma um rumo quando um bom propósito desponta. Para a historinha do Godô foi minha filha, Para o livro do Godô e o Vamos para a mesa foram meus pacientes.
Como ainda sinto que algo me empurra, e muitas pessoas precisam de ajuda, comecei um novo projeto de escrita, segredo por enquanto.
Meu Daruma está de olho, com os dois olhos.