
Há algum tempo se fala de RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA quando o assunto são as Dificuldades Alimentares.
Eu demorei algum tempo para entender como aplicar este conceito, até que um dia assistindo uma palestra de uma gastroenterologista percebi que ela também estava desconfortável com esta ideia. A colega baseou a palestra no artigo do Dr. Kerzner de 2015. Este artigo, apesar de não ser definitivo, foi um divisor de águas para mim e é repassado para os residentes de pediatria que passam pelo Ambulatório de Dificuldades Alimentares (ADA). Falarei melhor em outra oportunidade.
A palestra transcorreu muito bem, mas no momento de falar em responsabilidade compartilhada tive a impressão que o volume da voz diminuiu, ela falou mais rápido, apenas citou.
Eu entendo o desconforto pelo viés da minha experiência. Vamos lá:
Responsabilidade compartilhada quer dizer que pais e crianças compartilham responsabilidades sobre a alimentação da criança, de acordo com suas possibilidades.
Os pais são responsáveis por “Quando”, “Como” e “O quê” a criança vai comer. O “Quanto” comer, fica a cargo da criança.
Viu?
A sua surpresa é a mesma de todas as mães quando digo isto. A primeira reação é “mas daí ele não vai comer nada”. As mães levantam todas as resistências possíveis se algo ameaça seus filhos. E é normal que isto aconteça. É difícil e demorado explicar como e porquê fazer isto. Mas com paciência é possível.
Explico.
Os pais resolvem QUANDO: os horários rotineiros, seguindo o horário que estimule o apetite, sem oferecer calorias nos intervalos. COMO: na mesa, com talheres, pratinho, no cadeirão ou no colo, em família ou só com a mãe, sem televisão ou celular ( também falarei disto oportunamente) e finalmente, O QUÊ: que num primeiro momento será somente os alimentos que a criança já come bem, ( minha conduta em relação às Dif. Alimentares é focada nas relações com a comida e com os pais e não na comida propriamente dita). Sim, não adianta começar oferecendo alface ou escarola que não vai dar certo. Começamos por aquilo que a criança ja come, nem que seja macarrão instantâneo, (alguns nutricionistas vão torcer o nariz, isto para dizer o mínimo). Mas a permissão de comida trash é somente no início. Em pouco tempo a criança e os pais voltam a ter prazer na refeição. Quando isto acontece já podemos começar a aumentar o repertório alimentar da criança, e da família.
A criança vai resolver QUANTO: pode ser que coma pouco e vai ter que aguardar o próximo QUANDO determinado pelos pais, que não vai demorar muito, mas vai ser tempo suficiente para ela sentir fome e ter que lidar com a decisão de não ter comido o suficiente. Pode ser também que o QUANTO seja demais e leve esta criança para o sobrepeso e obesidade, neste caso os pais lidam com O QUÊ. Oferecem alimentos menos calóricos, menos obesiogênicos.
A responsabilidade principal continua com os pais. Mas vão dando autonomia e responsabilidade para seus filhos, para que lá frente estes futuros adultos tomem suas decisões com mais consciência e mais saúde.
Tem dado muito certo.
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