
Pedro ( nome fictício) veio trazido pela avó, porque é magro e “não come nada”. Ele tem 9 anos, e é magrelo mesmo, mas não fica doente e vai bem na escola.
“Não come nada”, é a percepção da avó. Na realidade o Pedro é o que se chama de seletivo leve, come preferencialmente o que ele quer, doces, leites, alimentos fáceis de mastigar, arroz e polenta, evita carnes, frutas, legumes, verduras e feijão.
A avó conta que cria o Pedro e mais uma neta, e que os dois são magrinhos. Fica incomodada porque os outros netos que são criados pelos próprios pais são mais rechonchudos. E reclama: ”O que os outros vão pensar de mim?”
Esta queixa é comum, os pais ou cuidadores vêm preocupados com a criança mas também imaginam que todas as outras pessoas os julgam pela magreza da criança, “Os outros vão achar que não dou comida pra ele”. Geralmente é um pensamento irreal, mas que é reforçado quando alguém fala que a criança está muito magra.
É interessante porque é possível que ninguém preste atenção na magreza da criança, mas se uma única pessoa fizer um pequeno comentário, esta observação encontra ressonância nos pensamentos do cuidador e tudo fica absurdamente grande.
Na consulta, esta avó recebeu as recomendações iniciais de Alivio de Estresse, de Horário que Estimule Apetite e de Apresentação Sistemática de Alimentos.
Depois de 30 dias, o retorno. Pouca coisa mudou. A preocupação com o julgamento dos outros estava pior para a avó. Mas na consulta ela ameaça denunciar o neto. Ele dá um riso amarelo e fica tenso, incomodado. A avó acaba denunciando:
-Dr. ele mama mamadeira. Aos 9 anos!
Passado o primeiro impacto, a pergunta foi: porque a senhora dá a mamadeira?
Resumindo, a resposta da avó foi que como ele não comia nada, ela ficava com pena e com medo do julgamento externo. Acabava dando o leite, pois ao menos ele comeria alguma coisa.
Primeiro conversamos com o Pedro, fizemos algumas brincadeiras para amenizar o constrangimento de ser denunciado e fizemos algumas perguntas para que ele pensasse sobre o uso da mamadeira.
Conversamos com a avó na frente do Pedro, porque achamos que a criança deve saber o que está sendo combinado, principalmente porque ele já tem 9 anos. Quando os pais falam baixo na frente da criança ou a tiram da sala, o tema vira um tabu. Procuramos deixar o assunto o mais natural possível. Sendo assim, foi explicado que ao dar a mamadeira ela o tratava como um bebê. Que a mamadeira atrapalhava a alimentação. Não apenas pelo volume calórico fornecido pela via inadequada para esta idade, mas também pelas questões emocionais envolvidas. Que o Pedro deveria desenvolver mais responsabilidades, inclusive pela sua nutrição.
A Vó escutou atenta e o Pedro também.
Reforçamos que havia um comportamento regressor que foi, então, evidenciado em outras condutas. A avó picava alimentos para facilitar a ingesta e se o neto recusasse um alimento, fazia outros na mesma refeição e mesmo assim ele acabava não comendo.
Orientamos a mudança de conduta, mas ela deveria progredir de acordo com o que ela conseguisse fazer, sem muita tensão.
Não retiramos a mamadeira, mas a avó foi instruída a não prepará-la, se o Pedro pedisse, ele poderia prepará-la sozinho, teria que lavar a mamadeira após o uso também.
No último retorno ambos entraram com um sorriso.
-Temos novidades, o Pedro não mama mais. (ufa!!)
Ele tentou comer a cenoura algumas vezes mas não conseguiu, como alternativa ele mesmo pediu para tentar o feijão, que vem comendo diariamente e na escola não recusa mais o lanche que é servido.
Perguntamos para a avó o que havia acontecido para que estas mudanças ocorressem. E a resposta foi muito significativa.
-Não sei Dr., eu só falei pra ele que ele tinha que começar a se cuidar, que ele tinha que começar a comer melhor senão ficaria fraco e que ele não conseguiria jogar futebol. Comecei a mandar ele ir na venda comprar alguns alimentos.
A avó que se sentia responsável pela magreza, pelo não comer, pelo baixo ganho de peso, passou a compartilhar as responsabilidades da alimentação do neto, com o neto. Pedro foi chamado a uma maturidade mais compatível com seus 9 anos e passou a participar do seu processo alimentar.
É importante ressaltar que a avó não teve uma atitude negligente quando deixou de fazer a mamadeira ou parou de picar alimentos. Ela pôs limites amorosos. Mesmo que aparentemente sutis, estas mudanças ecoam profundamente na criança e nas suas relações com o mundo.
Percebemos cada vez mais que as intervenções nas Dificuldades Alimentares são mais efetivas quando o foco principal são as relações, a comida vem depois.
Gostei muito da sua abordagem com a avó, parabéns!
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Obrigado Maristela.
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Muito boa a sua abordagem. Vou encaminhar à mãe de um aluno que está muito preocupada com a alimentação do mesmo .
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Obrigado Patrícia. espero que a ajude.
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