“Meu filho não come”. Vinte a trinta por cento das mães e pais têm esta queixa, portanto, é uma das frases mais ouvidas pela maioria dos pediatras. Não foi diferente comigo.

Junto com a frequência da queixa outra coisa acontece, a dificuldade de compreensão do assunto, até pouco tempo não havia uma padronização da nomenclatura e nem produção científica robusta sobre o tema. Por causa disso se houve muitas orientações do tipo: “deixa passar fome que uma hora come” e “Em casa que tem comida criança não morre de fome”, ou então a mãe escuta do seu pediatra que não há problema nenhum porque a criança tem peso e estatura adequados e sai pouco convencida da consulta.

Com a necessidade de entender melhor este problema, em 2016 propus a criação de um ambulatório destinado a atender famílias com crianças que não comem bem no CHC-UFPR (Complexo Hospital de Clínicas – Universidade Federal do Paraná). O Ambulatório de Dificuldades Alimentares (ADA). Atualmente este ambulatório atende crianças do SUS (Sistema Único de Saúde) de 2 a 12 anos, encaminhadas da rede pública e de outros ambulatórios de especialidades do CHC-UFPR. Tem capacidade para aproximadamente 380 atendimentos por ano e é fonte de aprendizado para os residentes de pediatria do hospital. Estas características fazem do ADA o único ambulatório do tipo no país.

A maioria das famílias procura o ADA para “fazer” a criança comer. Na medida que entendem a complexidade do problema, as questões relacionadas à criança e sua própria participação, essa postura mais controladora vai se desfazendo e passam a entender e respeitar as dificuldades do filho. Entendem também que a alimentação é uma parte de um processo mais amplo, a refeição. E que para uma criança comer adequadamente ela precisa gostar de participar da refeição em família, sem estresse, sem coerções ou chantagens, também sem telas ou distrações, num ambiente verdadeiramente familiar.

Uma das questões frequentes que permeia os atendimentos é a “manha”. Muitas famílias acreditam, ou são levadas a acreditar por parentes, amigos ou até mesmo profissionais, que seus filhos não comem porque são manhosos ou enjoados. Esta colocação é sempre muito perigosa, porque menospreza o sofrimento das crianças. Algumas têm problemas orgânicos, (endócrinos, cardíacos, genéticos, etc.), outras apresentam seletividades alimentares complexas, baixo apetite e até mesmo medo de comer.

Mesmo com aquelas crianças nas quais o não comer pode estar sendo usado para ter algum controle sobre a família, é importante se perguntar por que esta ela precisa usar recursos tão estressantes e com resultados tão negativos para se relacionar com a família.

A alimentação é um processo relacional, veja, a amamentação é a principal forma de contato entre o bebê e sua mãe, mesmo quando a amamentação ao seio não seja possível. Fazer uma refeição continuará sendo , até o final de nossas vidas, a principal maneira de convívio, afinal, quando queremos comemorar algo nos reunimos para comer. Não é possível “fazer” uma criança comer adequadamente, com prazer e alegria se não houver tranquilidade, respeito, exemplo e amor.

5 comentários

  1. Boa noite, Dr!

    Meu filho apresentada seletividade alimentar, desde que começou a pandemia, só come arroz, feijão e miojo. Café da manhã é apenas um tipo de pão, biscoito polvilho, batata chips e algumas frutas, mas tem jeito, carne, legumes, verduras tem pensar, todavia, ele foi diagnosticado com TEA…está fazendo TO e psico comportamental, mas por enquanto, não mudou os hábitos! Algo a mais que possa fazer para ajuda-lo! Acho importante que os pais saibam que existe outras questões para além de uma birra ou frescura no comer…

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  2. Hoje tem quase 30 anos mas continua com dificuldades relacionadas a rotinas. Mas auando percebemos e rebemos orientações ,né Dr, Cicero, foi se transformando em algo prazeroso.Hoje come muito bem, mas claro, respeitar o paladar foi vital.Arroz, feijão, uma carne e aos poucos foi introduzindo variedades maiores de verduras e legumes. Não sei , não tenho certeza, mas meu luto por perder o irmãozinho dele bebê foi um fato na nossa vida que pode sim ter marcado

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